Abel Ferreira avisou como enfrentará o Flamengo, que tem lhe dado razão

Um dia, quando Abel Ferreira estiver trabalhando em outro país, uma parte do ambiente futebolístico brasileiro lamentará a perda da oportunidade de conversar sobre futebol com um treinador que não rejeita o debate público. Sim, o flerte com a arrogância é parte do pacote, especialmente na derrota, e, sim, a visão distorcida do que seja o papel de jornalistas também precisa ser considerada, mas o técnico do Palmeiras não aborda entrevistas como ocasiões para exibir o resultado de cursos para falar ao microfone e/ou dissertar sobre o nada. Ao contrário, quando perguntado sobre o jogo, ele responde com jogo, mesmo que isso signifique revelar o que a maioria de seus colegas teme.

Abel Ferreira ainda não venceu o Flamengo Foto: Cesar Greco / Palmeiras

Após vencer o Ceará, na semana passada, Abel não apenas tratou da atuação de seu time em Fortaleza, como também explicou como o Palmeiras pretende ser campeão da Conmebol Libertadores. Ao dizer que pediu à equipe que “não abdicasse da bola sempre quando o adversário não é melhor”, o plano de como enfrentar o Flamengo no fim de novembro na final da competição continental, ficou evidente (se ainda houvesse dúvidas). Abel passou a temporada claramente incomodado com a ideia de que o Palmeiras deveria jogar “outro tipo de futebol” – mais próximo do que fazem Atlético Mineiro e Flamengo, adversários que constituem o trio de candidatos a tudo no Brasil –, baseada num time imaginário que seria formado pelos jogadores que compõem o elenco do clube. Suas convicções, ou seja, o jogo que ele sente e enxerga como mais apropriado para o time que dirige, sempre lhe disseram outra coisa. E se a possibilidade de uma alteração de rumo com vistas à decisão em Montevidéu parecia próxima de zero, as últimas atuações do Flamengo certamente encerraram o caso.

Abel Ferreira é um proponente das visões de José Mourinho, compatriota que entende que os chamados times “de posse” vivem sob o permanente risco de pagar caro por erros inevitáveis a essa forma de jogar. A estratégia para enfrentá-los passa pela recusa a discutir a posse, investindo na precipitação e capitalização desses erros. Assim o Palmeiras viveu seus melhores dias desde o ano passado, e, quando as coisas não andaram bem, a dificuldade para ser protagonista com a bola diante de oponentes inferiores tecnicamente mostrou, de maneira indiscutível, como o time se sente mais cômodo. A não ser que Renato Gaúcho dê uma cartada extremamente arriscada e improvável, a dinâmica da final da Libertadores terá o Flamengo com a bola e o Palmeiras com o espaço. É exatamente o desejo de Abel.

O atual estágio de atuação do Flamengo – considerando os desfalques – lhe dá razão. Contra Cuiabá e, especialmente, Fluminense, o que se viu do melhor time do país foi uma versão defeituosa de si mesmo, incapaz de desordenar rivais por intermédio de superioridade técnica e exposta ao ter de se defender. É o inferno de equipes habituadas a dar as cartas, instalar-se no campo do adversário e impor suas vontades. Pode-se perfeitamente apontar soluções de jogo para esse dilema, como por exemplo a sugestão do ataque posicional, com o acréscimo de um atacante e a disposição de jogadores entre os defensores rivais de forma a alargar a linha mais próxima da área. A questão é que, como tudo, essa organização ofensiva precisa ser treinada, compreendida e interpretada pelos futebolistas. Antes de mais nada, precisa ser parte do manual do técnico, e está claro que Renato prefere que seus times utilizem a bola como referência para associações. É o futebol que ele aprendeu, jogou (muito) e propõe como treinador.

No momento, a um mês da final, não está funcionando. As perguntas que o Flamengo se faz agora indicam as respostas que Abel Ferreira já tem.

Por André Kfouri

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