Árbitro Marielson: Do sonho de criança ao melhor árbitro Baiano em 2017

O árbitro conquistense Marielson Alves Silva, 34 anos, acaba de receber um prêmio de melhor árbitro do Baianão de 2017. A tarde de hoje foi cheia de compromissos com a imprensa. Eu o acompanhei e também conversei com ele para saber um pouco mais sobre sua carreira e vida pessoal. Confira:

LF: Marielson, como começou a sua carreira no futebol? Você era jogador e se tornou árbitro ou já começou na arbitragem?

Marielson: Eu comecei com 13 anos de idade. Meu sonho era ser jogador de futebol, então eu treinava na escolinha do meu pai. Nessa escolinha meu pai criou diversas categorias e meus irmãos mais novos jogavam, assim logo começaram a aparecer muitos garotos para jogar também. Com isso, meu pai não tinha condições de treinar e apitar e um dia ele me passou o apito e disse para eu apitar enquanto ele organizava o lado de fora. Depois disso eu comecei a apitar outros treinos, sempre chegava mais cedo para ajuda-lo. Um dia tinha poucos garotos e ele pegou o apito para apitar o jogo, foi quando um dos jogadores, um dos mais problemáticos, disse a ele que me deixasse apitar ao invés dele. Meu pai se espantou, não disse nada, me entregou o apito, mas ficou refletindo sobre o porquê daquele pedido. Eu apitei ainda sem noção de regras ou do gestual, mas tinha facilidade de estar próximo aos lances. Isso chamou atenção do meu pai e conversando comigo me disse sobre a arbitragem ser uma profissão e me perguntou se eu realmente gostava. Como respondi de forma positiva, quando ele marcava amistosos da escolinha eu levava dois uniformes, o de jogador e também o de árbitro. O primeiro jogo era dos que chamávamos de Fraldinhas que era o que sempre eu apitava. Chegando lá tinham sempre os árbitros de beira de campo que apitavam e às vezes por algum problema acontecia alguma confusão ou o árbitro não estava dando certo e meu pai, procurava o organizador do evento e dizia que ele tinha um árbitro que podia ajudar, mas que era seu filho.  Mesmo com as brincadeiras geradas, as pessoas me davam a chance, até mesmo porque meu pai dizia que se não desse certo ele seria o primeiro a me tirar do campo. Aconteceu que o pessoal gostou e queria que eu apitasse a outra categoria. Não aceitei porque era uma categoria de jogadores mais velhos e eu não estava preparado. E assim comecei. Tinham os amistosos  e campeonatos de escolas com os Fraldinhas e o organizador que tinha me visto apitando, sempre me chamava. Em 98 eu fiz o curso pela Liga aqui em Conquista e em 2002 a Federação já estava acompanhando meu trabalho e me convidou para fazer o curso em Salvador. Eu fiquei lá por 1 ano e retornei em seguida.

 LF: Onde era a escolinha do seu pai?

Marielson: Era aqui em Conquista mesmo. Chamava Escolinha Nova Geração, depois passou a ser Vila da Conquista e integrou ao time do Vila passando a ser a divisão de base do time do Vila da Conquista. Então minha carreira iniciou assim, no campo da Ester, campo do Bairro Brasil, Urbis VI e outros.

LF: Depois desse curso em Salvador como ficou a sua carreira?

Marielson: Após o curso da Liga aqui em Vitória da Conquista, que era reconhecido pela FBF, eu já comecei a bandeirar o Intermunicipal, os juniores e depois o Baiano. Até então o intuito da Federação era que eu fosse assistente. Em 2003, após o curso em Salvador, eu recebi um convite para fazer o teste para o quadro nacional. Eu sabia que entraria no quadro nacional esse ano, mas como assistente não como árbitro central. Eu tinha o objetivo de ser árbitro central. Com isso eu me afastei da arbitragem de 2003 até o primeiro semestre de 2005. Retornei do segundo semestre de 2005 e aí sim, a Federação estava fazendo um trabalho de renovação do quadro da arbitragem, estava querendo resgatar árbitros, renovar o quadro. Foi quando me fizeram o convite e me perguntaram se eu queria fazer o teste como árbitro. Claro que aceitei e aí comecei a apitar pela Liga aqui de Conquista, o Intermunicipal, coisa que eu nunca tinha feito como árbitro central e no final de 2005 o presidente da federação me convidou para apitar uma final do Campeonato Baiano Infantil que foi até com o Bahia x Vitória no Barradão. Eu fui para apitar e ele foi para assistir e aprovou a minha atuação. De lá para cá não saí mais. Em 2006 entrei para o quadro nacional e graças a Deus tenho dado continuidade até hoje.

LF: Você hoje é aspirante à Fifa. O que vem a ser essa posição? O que falta para você chegar a ser um árbitro Fifa?

Marielson: Aspirante é quadro da CBF. A CBF trabalha com toda a linha dos árbitros e aí tem os Aspirantes, os Árbitros Especiais e os Fifas. Os Especiais são aqueles que já se aposentaram, eu já foram Fifa e perderam o escudo por algum motivo. Já os Aspirantes, são aqueles que estão sendo preparados pela CBF para ser um futuro Árbitro Fifa. Então hoje eu me encontro em um patamar que caso surja uma vaga para árbitro Fifa, eu posso ser indicado. Quem indica é a CBF e o que faz ser indicado seriam as atuações nos jogos da série A, ser bem nas atividades físicas e teóricas. Então é isso. O quadro Aspirante Fifa me habilita a ser um árbitro Fifa.

LF: Para ser um árbitro Fifa você precisa falar um segundo idioma como o inglês. Você está estudando?

Marielson: Eu já falo fluentemente o Espanhol e estou na parte intermediária do inglês o que já seria, dentro dos pré-requisitos que a CBF exige, suficiente para ser um árbitro Fifa. Mas vou continuar estudando, não posso parar. Meu objetivo é chegar a um grau avançado, ser fluente no inglês.

LF: Ser um árbitro de futebol modificou a sua vida que forma? Tem alguma interferência na sua maneira de ser ou agir?

Marielson: O árbitro é uma pessoa pública assim como o jogador, o treinador, então acaba que muitas coisas ficam limitadas até mesmo porque a pessoa pública é vista tanto pela sociedade esportiva como a sociedade como um todo, com um rótulo referente à posição que você ocupa. Tipo: Marielson, o árbitro. Então evito situações, mas não deixo de ser o Marielson que antes de ser árbitro de futebol, é um ser humano, tenho minha dignidade passadas pelos meus pais, respeito ao próximo, a humildade, isso tudo vem de berço. Independente de onde a gente chega à profissão são valores que não podemos perder nunca. Muitas vezes amigos perguntam por que não me veem em barzinhos. Eu sempre respondo que vou sim, gosto de encontrar amigos, mas confesso que evito a frequência. Assim, a profissão de árbitro ainda sofre um pouco de discriminação. Por exemplo, nesse fim de semana estarei trabalhando em um jogo do campeonato Brasileiro. Digamos que eu sente em um barzinho e tome um refrigerante, alguém fotografa ou apenas diz que eu estava bebendo cerveja nas vésperas de um jogo importante como esse. Então por essas e outras coisas eu tento me resguardar e evito provocar situações.

LF: Quais foram suas maiores dificuldades durante esse tempo que se dedica à arbitragem?

Marielson: Dois momentos foram difíceis, o primeiro quando tive que passar, em 2002, um ano em Salvador fazendo o curso da FBF e depois o retorno para conciliar o trabalho de árbitro que necessita muitas vezes viajar, com trabalho fixo. Difícil uma empresa que aceite.

LF: Árbitro de futebol sofre muitas ofensas no campo e fora dele, tanto das torcidas como dos próprios jogadores. Isso tudo exige um preparo psicológico especial. Existe um trabalho feito com vocês por conta de situações assim?

Marielson: Exige sim um preparo psicológico e isso é um dos pré-requisitos da CBF. Exige o que eles habilitam a. Que é a parte física, teórica, social e a parte psicológica. Então, nós temos acompanhamento hoje com a Drª Marta que faz um trabalho na CBF e o Leonardo Beijo que é da FBF. Ambos fazem um trabalho em parceria para atender os árbitros da Bahia.  Em nosso trabalho precisamos estar a flor da pele, eu digo sempre que se um jogo está com uma temperatura alta, temos que estar também só que mantendo a serenidade e o controle. É diferente do jogador que muitas vezes perde a cabeça e o sentido, nós árbitros, temos que ter calma para lidar com determinadas situações. Então esse trabalho psicológico é feito e é importante, mas também a natureza do árbitro influencia na forma de lidar em campo.  Em relação á torcida xingando, fazendo barulho, já é um estímulo. Por exemplo, ano passado eu tive a oportunidade de apitar dois jogos, Um com maior público e outro com menor público. O menor foi com portões fechados, portanto não tinha ninguém e o maior público foi no Mané Garrincha, cerca de 80 mil pessoas. Então sinto que o maior público é a melhor coisa que tem, porque quanto mais gente, quanto mais pressão melhor, é assim que a gente funciona, a gente vê o tamanho da responsabilidade que temos. Então nos dá mais força, eu particularmente fico mais forte.

LF: Você já se encontrou em alguma situação delicada que tenha se sentido ameaçado ou precisou tomar alguma providência fora do campo?

Marielson: Graças a Deus não. Conheço exemplos de alguns colegas que já sofreram ameaças de agressão em aeroportos, outros que foram hostilizados dentro da própria cidade e ainda bem que comigo nunca aconteceu. Nunca tive essa experiência ruim e espero em Deus que isso não venha a acontecer. Hoje a sociedade esportiva deve ter em mente que somos profissionais. Eu sempre digo que o árbitro é um personagem. No campo eu sou o árbitro Marielson, fora eu sou apenas Marielson. Dentro do campo a torcida reclama, questiona, assim como jogadores e comissão técnica. Deixei as quatro linhas, eu volto a ser o Marielson que sou aqui fora. É aí que a sociedade precisa diferenciar e respeitar o árbitro de futebol. Muitas vezes um colega conversa comigo e começa a questionar algum lance de um jogo que arbitrei, eu peço logo para mudarmos de assunto porque naquele momento não sou o Marielson árbitro. Então lamento muito o que aconteceu com os colegas, mas por outro lado foram fatos isolados que não tem se repetido.

LF: Quais seriam para você os jogos mais emocionantes que já participou?

Marielson: Com certeza a minha estreia em 2014 na série A que foi um jogo de São Paulo x Botafogo, também naquele mesmo ano eu fiz um clássico nordestino pela série B que foi Náutico x Santa Cruz, um jogo muito difícil. Eu não tinha ainda muitas referências como árbitro e os jogadores poderiam pressionar mais, fiquei tenso. Mas deu tudo certo. Dentro de campo controlei a partida e os jogadores se preocuparam apenas em jogar. E por último não tem como eu não citar o grande clássico que arbitrei no domingo passado, que foi a final com o Ba x Vi. Eu nunca tinha apitado uma final de campeonato baiano muito menos sendo Ba x Vi. Realmente, muito emocionante.

LF: Como você recebeu a indicação e premiação do melhor árbitro do Campeonato Baiano? Você foi pego de surpresa? O que representa esse prêmio para você?

Marielson: Sim, foi uma surpresa. Representa uma conquista a mais na minha carreira. Em 2007 fui indicado pela primeira vez e agora novamente. Nós árbitros quando entramos em campo e fazemos um bom trabalho, não passa de obrigação, essa é a realidade. Mas é muito gratificante quando esse trabalho é reconhecido. Eu tenho um ditado que sempre digo que o árbitro precisa entrar em campo como se fosse uma agulha e sair como uma linha, sem ser visto. Esse é o trabalho correto de um árbitro. O atleta não, quanto mais ele é visto, melhor, porque ele foi visto no jogo. O árbitro, quanto mais ele é visto no jogo é porque alguma coisa errada aconteceu. Esse é o perfil correto de um árbitro. Então eu quero nunca ser visto em campo, apenas no sentido positivo que é fazer meu trabalho e sair ileso. Então esse prêmio foi um reconhecimento do meu trabalho, foi uma surpresa e fiquei muito feliz. Vou continuar batalhando para que outros prêmios venham. Depois de dois prêmios no campeonato baiano, quem sabe um no brasileiro e buscar a conquista de objetivos mais altos que um é chegar à Fifa e o outro é apitar em uma Copa do Mundo.

LF: Como é o Marielson fora do campo, no seu dia-dia?

Marielson: Um Marielson muito tranquilo, o oposto do que sou em campo. Muitas vezes as pessoas comentam que não acreditam que sou eu no campo, com cara de mal, dando broncas.(risos). Então procuro ser um Marielson amigo, pai, irmão, filho. Sou muito grato aos meus pais Jeová e Maura pelo amor a mim dedicado, se não fossem eles eu não estaria hoje na arbitragem. Trabalho sou funcionário público municipal, treino todos os dias, tanto a parte específica da arbitragem como a artes marciais que é o Jiu Jitsu. Um Marielson que respeita as pessoas e procura ser respeitado.

Por Luciana Flores

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